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BOTVINNIK x BRONSTEIN
, A HISTÓRIA AINDA ESPERA PELA PALAVRA FINAL.

[Berto José Costa F=(048)241-2329 - Florianópolis, Jul/99]

De um lado do tabuleiro, impassível, estava sentado MIKHAIL MOISEYEVICH BOTVINNIK, 39 anos, o Campeão Mundial de Xadrez desde 1948. Do outro lado, um pouco mais nervoso, tentando se acomodar na cadeira, estava DAVID IONOVICH BRONSTEIN, mais jovem, com 27 anos, o Desafiante, vencedor do primeiro Torneio de Candidadtos da FIDE, disputado em Budapeste em 1950.

O cenário era o de Moscou e estava em jogo a coroa de Campeão das 64 casas. Ia ser iniciada a 23ª partida, a penúltima do match. BRONSTEIN estava vencendo por 5 a 4, com treze empates, e vinha de duas vitórias seguidas, fator psicológico perigosamente negativo para BOTVINNIK, que se perdesse esta 23ª partida, perderia também o título. Era como uma partida de sinuca que estava "pela bola 7", a bola estava caindo na caçapa e a vez da tacada era do adversário. Sua situação era dramática.

Entretanto, o Campeão estava impassível. A sua concentração, a sua frieza e racinalidade davam-lhe um aspecto soberano. Era o calculista, o racional, o matemático. Alí estava o Campeão, todos logo percebiam isso. Mas, BOTVINNIK estava preocupado e estava dirigindo todos os seus esforços para não deixar transparecer as suas preocupações. Não gostava de BRONSTEIN, não gostava do jeito como ele sentava à sua frente, com a cabeça calva levemente inclinada para a direita, não gostava da mania que ele tinha de se levantar após cada lance e ficar em pé atrás da cadeira tomando chá e olhando fixamente o tabuleiro, não gostava da maneira como se concentrava antes da partida, às vezes por períodos de dezenas de minutos, como se estivesse já antevendo toda o seu desenrolar mesmo antes do seu início, e, principalmente, não gostava da atrevida e irritante insistência com que ele vinha jogando as aberturas, que eram as aberturas do seu próprio repertório, como se tivesse que "jogar contra sí mesmo".

Não estava gostando nada da situação. A enorme pressão de Moscou, centro enxadrístico do planeta na ocasião, extremamente exigente estava sufocando-o. A cidade inteira estava respirando e transpirando xadrez naqueles dias. O mundo enxadrístico todo estava focalizado no match. Tinha que jogar todas as suas fichas nesta partida, ... tinha que ultrapassar todas estas barreiras psicológicas adversas, ... tinha que fazer valer toda a sua energia racional e calculista, ... TINHA QUE VENCER.

E BRONSTEIN estava sabendo de tudo isso. Estava sentindo o progressivo fortalecimento de BOTVINNIK. Estava sentindo que aos poucos a sua concentração ia lhe agregando mais e mais energia, por isso o seu nervosismo. Tinha pelo Campeão um profundo respeito. Conhecia bem a sua frieza e o seu poder de calcular, principalmente quando se encontrava em situações adversas como aquela. Mas BRONSTEIN também se conhecia, sabia da sua própria força no xadrez. Está certo ... era um sonhador romântico ... um sacerdote do nobre jogo. Para ele nada mais tinha importância na vida, apenas o xadrez. Mas, sua fértil imaginação criativa, sua incontida vocação para o jogo, sua intensa e total dedicação às 64 casas do tabuleiro, sua paixão pelos valores táticos das jogadas, indo sempre em busca de ferozes lutas e improvisadas e audaciosas manobras exploratórias, com um extremo gosto pelo "fio da navalha" dos apuros de tempo, lhe davam reconhecido respeito nos circulos enxadrísticos internos e internacionais. Era o gênio da improvisação criadora. Era a sensação russa do momento. Sua fama era comprovada através dos sempre bons resultados e brilhantes vitórias em torneios e também,e principalmente, em clubes de xadrez, aonde era imbatível no jogo rápido.

Estava nervoso, mas não receoso. Afinal, não estava vindo de duas vitórias consecutivas? E, a situação de ambos os contendores no match não estava na corda bamba? E, não era esta situação de perigo que ele tanto gostava? Então, porque recear. Ele, o Desafiante, sempre cortez, afável e extrovertido estava alí para "ou-tudo-ou-nada", enquanto BOTVINNIK, o Campeão, o comedido, o exato, o caculista, para "ou-tudo-ou-tudo".

E neste clima é que começou a penúltima e decisiva partida do match entre os dois, cada qual na sua dimensão psicológica, cada qual fortalecido à sua maneira. Foi um confronto de estilos e de temperamentos.

BOTVINNIK, M. - BRONSTEIN, D.
MATCH PELO CAMPEONATO MUNDIAL
Moscou - 1951 - 23ª partida
Def. Grunfeld

1.d4 Nf6 2.c4 g6 3.g3 c6 4.Bg2 [BOTVINNIK, embora precisando ganhar, evita situações complicadas, mais ao gosto de BRONSTEIN] 4....d5 5.cxd5 cxd5 6.Nc3 Bg7 7.Nh3 Bxh3!? [Cedendo o par de Bispos para as Brancas. Primeira grande definição da partida] (ver diag.)

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8.Bxh3 Nc6 9.Bg2 e6 10.e3 O-O 11.Bd2 Rc8 12.O-O Nd7 [Alguns analistas recomendam aqui 12....Ne8, com a idéia de mais tarde jogar o Cavalo em d6] 13.Ne2 Qb6 14.Bc3 Rfd8 15.Nf4 Nf6 16.Qb3 Ne4 [16....Qxb3 era jogável] 17.Qxb6 axb6 18.Be1 Na5 19.Nd3 Bf8 20.f3 Nd6 21.Bf2? [Cedendo a iniciativa ao adversário] 21....Bh6 22.Rac1 Nac4 23.Rfe1 Na5? [Lance muito criticado. Seria melhor 23....Nf5] 24.Kf1 Bg7 25.g4 Nc6 26.b3 Nb527.Ke2 Bf8 28.a4 Nc7 29.Bg3 Na6 30.Bf1 f6 31.Red1 Na5 32.Rxc8 Rxc8 33.Rc1 Rxc1?! [Aqui seria melhor 33....Rc6, forçando a defesa do Peão de b3 de forma mais desfavorável] 34.Nxc1 Ba3 35.Kd1 (ver diag.)

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35....Bxc1?! [BRONSTEIN considerou este o maior erro da partida e de todo o match. Com este lance, fica resolvido para as Brancas o problema do Cavalo passivo de c1 e também, cede definitivamente às Brancas o par de Bispos] 36.Kxc1 Nxb3+ 37.Kc2 Na5 38.Kc3 Kf7 39.e4 f5? 40.gxf5 gxf5 41.Bd3 Kg6 [Nesta posição (ver diag.), a partida foi suspensa. O lance secreto coube a BOTVINNIK]

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42.Bd6? [O erro mais grave de BOTVINNIK durante toda a partida e justamente no lance secreto. Todos esperavam 42.Bb1!, o que lhe daria grande vantagem] 42....Nc6 43.Bb1 Kf6? [Deixando escapar a oportunidade de jogar 43....Na7! com igualdade] 44.Bg3! fxe4 45.fxe4 h6 46.Bf4 h5 47.exd5 [Com decisiva vantagem] 47....exd5 48.h4 Nab8 49.Bg5+ Kf7 50.Bf5 Na7 51.Bf4 Nbc6 52.Bd3 Nc8 53.Be2 [Aqui as Brancas prepararam uma posição de zugzwang para o seu oponente, recurso muito comum em finais de par de Bispos contra par de Cavalos] 53....Kg6 54.Bd3+ Kf6 55.Be2 Kg6 56.Bf3 N6e7 57.Bg5! [Nesta posição, BRONSTEIN meditou durante 45 minutos e ... abandonou (ver posição final abaixo). (1-0)

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Na verdade, o abandono de BRONSTEIN no lance 57 trouxe muita surpresa para todos, pareceu até intencional, pois embora a sua situação estivesse bastante difícil, BOTVINNIK ainda teria que fazer muitas boas e exatas jogadas para poder ganhar a partida, o que, no intenso ardor da batalha daquele momento, não seria tarefa fácil.

A posição acima, sempre intrigou os analistas. A resposta final ainda não foi dada, e está aí uma boa tarefa para todos nós, como desafio: Teria sido justificado o abandono de BRONSTEIN???

Na continuação do match, BRONSTEIN não conseguiu, talvez por ter ficado desorientado pelo resultado anterior, fazer frente ao adversário, e rapidamente empatou a 24ª e última partida, o que permitiu a BOTVINNIK manter o título de Campeão Mundial de Xadrez.

Fontes de Consulta: GUINNESS CHESS THE RECORDS-Ken Whyld; Los Campeonatos del Mundo-Moran/Gligoric; Revista LANCE nº1-Jan/95 [análises e comentários da partida, com algumas alterações]).