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Como qualquer
atividade humana o xadrez tem duas origens: a divina e a diabólica. O
xadrez como uma arte tem uma origem divina, enquanto que como um esporte
(quando conquista resultados a qualquer preço sacrificando a beleza do
jogo), caminha para o diabo. Há uma notável evidência sobre isso
agora. Depois de tudo, um computador é coisa nenhuma se não o diabo,
porque não cria coisa alguma. É um inspetor, ou mais precisamente, um
acusador. No seu livro ‘Meus Geniais Antecessores’, Garry Kasparov
destacou que computadores podem examinar as partidas dos grandes
jogadores de xadrez e mostrar seus erros. Agora dá a impressão que
brilhantes combinações de Alekhine, Tal e outros maravilhosos
jogadores foram defeituosas. Apesar disso, o mais atraente sobre xadrez é o conflito de personalidades e suas emoções sobre o tabuleiro, com todos seus erros. Computadores não se enganam, mas isso não extingue o esforço. O talento dos grandes jogadores e suas combinações provam isso. O que nós experimentamos sobre o tabuleiro é mais importante. Nós pensamos artisticamente. Cada tentativa para se compor um genuíno jogo pelo computador nega o lado criativo (divino) do xadrez. Cada pessoa devia antes de tudo mostrar sua origem divina. Então, se o computador refuta o jogo de Lasker – isso quer dizer que Lasker não é mais um notável jogador? Nós estamos muito satisfeitos com as excelentes combinações, e falhas são detalhes menos importantes. |
Como na realidade, no xadrez existem dois exércitos frente a frente. Se o
resultado pode ser calculado pelo computador, qual a razão para se lutar? Na
batalha de Austerlitz, Napoleão tinha 40.000 soldados. Seus inimigos
excediam-no em número – quase dois por um. Além disso, eles estavam em uma
posição melhor. O computador aconselharia Napoleão a render-se de uma vez.
Máquinas não consideram fatores psicológicos. Na batalha de Austerlitz, os
inimigos de Napoleão ou perderam seus ânimos ou foram apenas estúpidos,
pois deixaram suas posições melhores por outras mais deficientes. Napoleão
foi um gênio e direcionou o exército inimigo contra toda a lógica.
Antes de tudo, jogadores de xadrez são seres humanos que dependem de suas emoções.
Eles não estão isentos de falhas, devem até cometê-las. O xadrez reflete a
essência da natureza humana, incluindo idéias, criatividade e ilusões. O
lado emocional do jogo exerce um considerável papel. Quando nós lemos: “Se
não tivesse sido... teria...”, isso é impossível porque não existem
‘Ses’! Não é tão fácil tornar-se um campeão mundial. Uma vez eu
indaguei quais seriam os dez melhores jogadores do século. Essa é uma
pergunta errada. Cada campeão refletiu sua idade e o espírito de seu tempo.
Desta maneira podemos dizer que a história promoveu tais jogadores.
Atualmente, computadores trabalham para encontrar equívocos e ditarem padrões.
Então levanta-se a questão: o xadrez está realmente morrendo? (como na
"morte por empate" predito por Capablanca). Os jogos não estão
sendo interrompidos, computadores calculam tudo e começam a substituir os
seres humanos. Uma vez eu disse que computadores deveriam ser apenas
auxiliares. O que os jogadores de xadrez farão quando forem completamente
substituídos por computadores? Eu discuti esse problema com Botvinnik e ele
me disse: “Eles operarão as máquinas. Os melhores jogadores superarão as
melhores máquinas”.
Que tipo de idéia divina forma a base da vida humana? Viver e experimentar
todas as coisas é o sentido da humanidade. É impossível ganhar no xadrez
sem sentimentos (como meu amigo Levenfish me disse). Às vezes nós
experimentamos uma inacreditável gama de emoções. As pessoas estão
expostas a enormes suplícios nervosos, cada derrota é um protótipo da
morte. Depois do futebol, o xadrez é o que mais acarreta stress. Como
nós sabemos da memória de Jerome Horsey Ivan, o Terrível, morreu sobre um
tabuleiro de xadrez. Vladimir Bagirov e Aivar Gipslis sofreram o mesmo
destino. Eu não dei tudo que eu tinha na busca por rating ou esforcei-me para
alcançar resultados mais elevados, possivelmente com exceção do campeonato
mundial. Essa estratégia me permitiu estender minha energia racionalmente e
jogar por muitos anos. Como norma da vida, um jovem super-ativo tende a
relaxar quando mais velho, e o xadrez do computador tende a rejuvenescer
sempre.
Um modelo de jogador de xadrez é um sábio indiano curvado sobre o tabuleiro
num majestoso silêncio, mas definitivamente, não uma pessoa que
impacientemente desloca as peças sobre o tabuleiro. Cinco minutos de jogo não
é ser criativo, é apenas puro esporte. O xadrez já está perdendo sua
imagem de sabedoria e mudando rapidamente para apenas um esporte. Ganhar a
qualquer custo é o que mais importa agora. O Resto do Mundo ganhou contra a Rússia
no Match do Século e este acontecimento provou ser clara a evidência da
priorização do esporte sobre a criatividade. Quando jogávamos, não éramos
coagidos pelo tempo.
Você foi o único a prever a vitória do resto do mundo contra Rússia...
Isso foi provavelmente uma inspiração do Alto. Às vezes isso acontece
comigo. Eu não tenho intenção, mas sua pergunta surpreendentemente me alcança.
Então a resposta inicia-se em mim. Intuições à parte, existem algumas
outras regras que influenciam as pessoas. Em um jogo não é sempre o mais notável
jogador que ganha. Outros aspectos formam a vitória: unidade de equipe, coesão
e sorte. Não é suficiente saber teoria. Inspiração e criatividade também
são necessárias. Esses fatores são os mais importantes. Isso mostra a alma
humana mais claramente. Criatividade inclui harmonia e beleza, coisas que
aproximam o individuo de sua origem divina.
Claro, se não tivesse sido por minha visão, eu teria continuado a lutar
sobre o tabuleiro e não teria tido tempo para compor problemas de xadrez.
Isso é como uma oração disfarçada. Se os óculos pudessem fazer a percepção
dos olhos se expandir sobre o nervo, eu seria capaz de ver. Mas na minha
presente condição, eu apenas posso criar problemas e aplicar técnicas que
eu aprendi no decurso de muitos anos. Então, eu sou um compositor de
problemas de xadrez e escrevo livros para não perder minha origem criativa
(essência divina). Eu terminei meu livro ‘Secrets of Rook Endgames’, que
inclui sessenta jogos e quatro problemas de xadrez. Ele será publicado em
breve. Eu já publiquei um livro ‘Theory of Rook Endings’. Mas a teoria é
uma coisa, e a prática é completamente outra. Nimzowich também escreveu
dois livros: ‘My System’ e ‘Chess Paxis’. Claro que eu comentei meus
melhores jogos nesses livros. Aqueles que me derrotaram podem igualmente
incluir esses jogos em suas próprias obras.
Mas, o que predomina no xadrez: o divino ou o satânico?
O xadrez tem algo do diabo. Eu não posso especificar exatamente o que é, mas
sinto isto intuitivamente. Acho que os sacerdotes tinham toda razão em
considerar o xadrez um jogo demoníaco. Não são apenas os cristãos que
defendem esta opinião, o xadrez também foi banido no Iraque. Até hoje
padres repudiam o xadrez. João Paulo II era um inveterado jogador de xadrez
na sua juventude, e até compôs um problema de mate em três lances. Mas
quando se tornou Papa, desistiu do xadrez.
Minha experiência mostra que o diabo luta com Deus no xadrez como na vida
real, e que o campo de batalha não é o tabuleiro, mas os corações das
pessoas. Percebi isso depois do meu jogo contra Hübner, que terminou
empatado. Muitos foram os lances no cassino. Foi a primeira vez que eu
tive a sensação que eu não poderia influenciar meu próprio destino. A
roleta decidia o resultado e a bolinha dourada era usada para evitar
magnetismo. Se a bola caísse em um número vermelho eu seria o ganhador. Um número
preto daria a vitória para Hübner. A bola foi lançada e caiu no ‘zero’,
como em Dostoevsky. Não havia ganhador. A bola foi lançada novamente e desta
vez caiu no número vermelho ‘três’. Desta maneira eu ganhei a competição.
Mais tarde me dei conta que Deus havia lutado com o diabo em um cassino
e eles haviam empatado no primeiro tempo. Mas, no fim, Deus ganhou e condenou
Hübner à derrota. Que eu saiba existiram boas razões: o comportamento de Hübner
foi incorreto durante a competição.
Você tem tido uma longa e produtiva vida. Que mais nós podemos perguntar:
qual é o significado da vida?
Todos deveriam experimentar suas próprias provas, incluindo sucessos e infortúnios.
Do meu ponto de vista, a Terra é um purgatório, nós estamos nos preparando
aqui para algo mais elevado. Fui me preparando através de ambos: sucessos e
quedas do destino.
A experiência mais terrível foi a perda da vista. Contudo, evidentemente,
isso foi necessário por alguma razão, talvez para me fazer olhar mais para
dentro de mim mesmo, em direção à minha alma. Porque a preparação para a
vida em outro mundo através de nossa existência terrena é o significado da
vida humana. Nós deveríamos aumentar nossa bagagem espiritual aqui para
tornar possível nossa vida lá. Eu não revelo segredos que ligam o mundo
real com o espiritual. É melhor não saber sobre fenômenos místicos ou
ingressar de maneira errada no mundo divino. Claro, toda pessoa tem suas próprias
paixões, que a fazem agir contra as regras bíblicas. Hoje em dia, as paixões
humanas estão sendo intensificadas pelo poder satânico como nunca foram
antes. Os indivíduos são testados todo o tempo e fracassam na maioria das
vezes, eles não suportam a pressão. É muito difícil lutar contra as forças
diabólicas. Quando eu quebro leis divinas, perco mais que os outros porque eu
conheço as leis. Diferentemente de outros eu sei o que faço, mas nunca
tentei convencer os outros ou fazê-los mudarem de idéia. Eles farão isso
por si mesmos no devido tempo.
Todo indivíduo é muito complexo e freqüentemente fecha sua mente, não
apenas para o semelhante, mas também para si mesmo. Isso não é tão fácil
de compreender. A assistência divina é necessária, como o amor. Se uma
pessoa está apaixonada, passa a se conhecer melhor, pois revela algumas
peculiaridades que jamais havia imaginado. Entretanto, ela também percebe a
pessoa que ama e igualmente vê nela coisas que estavam ocultas para uma
percepção indiferente. Aqui a alma, que é a segunda vista, entra em ação.
O sentido da vida é deixar sua alma absorver tanto do Espírito Santo quanto
for possível. Deus não precisa dos despreparados. Ele quer aqueles que estão
prontos. Deus concede às pessoas uma oportunidade para melhorar seus karmas.
Provavelmente eu não esteja completamente pronto ainda, porque uma vez eu
estava morrendo, e não morri. Alguns dias atrás eu sonhei com minha mãe,
ela me disse: “Eu estou esperando por você, porque não vem?”
Evidentemente, era muito cedo. Isso significa que eu ainda sou necessário
para alguma coisa. Provavelmente, tenho alguma coisa para concluir neste
mundo.
Sobre a tradutora: Vanessa Alves Rodrigues tem 26 anos e reside
em São Sebastião do Paraíso/MG.
Além de professora, é formada em administração e faz consultoria de
empresas. Atualmente exerce a profissão de bancária.
Estuda inglês na Great School e espanhol no Fisk. Na área de
xadrez, apesar de estar dando os primeiros passos, já domonstra muita
afinidade com a modalidade.