Faleceu José Soares Másculo - Bi-Campeão Brasileiro Juvenil no final dos anos 70
Crônica a ele dedicada por seu amigo, jornalista e enxadrista Dirceu Viana
Na última sexta-feira recebi uma notícia de rasgar o peito. Colegas do xadrez tentavam checar comigo a informação de que um grande amigo -- querido por muitos -- havia falecido. Não podia ser verdade, pensava comigo, embora quanto mais refletia, mais desconfiava dos últimos fatos: todos conspiravam pela veracidade da história. Não dormi naquela noite. José Soares Másculo era para mim uma espécie de irmão mais velho, daqueles que defendiam idéias ponderadas, mas nem sempre era capaz de adotá-las. Sem dúvida uma figura alegre, falante e um amigo confiável. Nos últimos meses falávamos mais ao telefone do que pessoalmente. Problemas de saúde na minha família e o drama que começava a afetá-lo acabaram nos afastando por um período acima do normal. No domingo, conversei com sua mãe, dona Maria Tereza. Másculo faleceu no dia 15 de julho, aos 44 anos. Câncer no fígado, estágio final de uma hepatite do tipo C. Problemas de saúde sempre acompanharam sua vida. Aos 16 anos Másculo foi submetido a uma complicada cirurgia. Desde cedo sofria de varizes no esôfago, úlceras e também de um temperamento meio preguiçoso, largadão que complicava qualquer tratamento preventivo. Foi provavelmente nesta primeira cirurgia -- transfusão de sangue -- que ele contraiu o vírus da hepatite. No início os médicos diagnosticavam pancreatite, mas o problema era mesmo no fígado. Tarde demais.Há cerca de cinco anos ele passou por um grande susto. Uma das varizes se rompeu durante o sono, teve hemorragia, desmaiou sem ninguém por perto. Foi salvo pelo irmão Miguel, que desconfiado de seu sumiço, arrombou o apartamento. Me lembro bem da reação dele depois de sair do hospital. Estava assustado, agradecido e ciente. Tinha um novo discurso. Dali em diante estava determinado em se cuidar (embora já não bebesse, não fumasse e fizesse dieta). Uma disciplina rígida que não casava muito com o seu jeito de viver. Estive com Másculo pessoalmente pela última vez em dezembro do ano passado. Fui levar o convite de meu casamento, coisa simples, para poucos amigos. "Tomou jeito, Capi", foi a recepção que tive. Mas dali em diante o papo não foi legal. Ele me mostrou uma hérnia na virilha e me expôs o pavor de encarar a cirurgia. Liguei dias depois para saber como se sentia, se já tinha operado. Ele prometeu aparecer na festa, mas revelou que cancelara a internação no hospital. Não explicou muito, apesar da minha repreensão. Me casei e Másculo não apareceu. Não me surpreendi. Ele era assim mesmo, aparecia e desaparecia nas horas mais improváveis. A esta altura ele já sabia (em segredo) que o nível de plaquetas no sangue estava muito baixo. Exames revelavam um fígado perdido e de quebra um corpo que mal agüentaria um esforço físico maior. Daquele mês em diante o destino nos separou. Meu pai adoeceu e o amigo Zé guardou para si os problemas. Em meados de maio liguei para falar da vida, dar o novo endereço, contar do meu pai (de quem ele gostava), saber da hérnia, marcar uma visita. Nunca havíamos passado tanto tempo sem conversar. No outro lado da linha atendeu uma voz rouca, sonolenta, de quem foi despertado em meio ao sono. "Oi Capi, faz o seguinte, me liga depois, amanhã, pode ser. Não posso falar agora, abraço." Outra vez não ele quis revelar nada. Na minha rotina confusa esperei um contato na véspera de nossos aniversários. Era assim, eu no dia 1 de junho e ele no dia seguinte. Másculo sempre ligava para dizer para dizer alô, contar onde seria a reunião dele, e eu confirmava o comes e bebes lá em casa antes. Mas aquele dia 2 de junho seria diferente, bem diferente. Seria o primeiro dia numa cama de hospital. Nem tive cabeça para reagir, suspeitar. Meu pai descansou dias depois e Másculo virara um assunto para mais tarde. Tentei fazer contato para falar da missa de sétimo dia, sem sucesso. Tentei de novo, e nada, ninguém atendia. Conheci o Zé há exatos 20 anos, no Posto 6, em Copacabana. Naquele pedaço de areia os primeiros craques da seleção de vôlei jogavam na rede de Tia Leá. Bernard, Renan, Bernardinho e cia, a geração de prata. Ao lado, a turma do frescobol. Mais em cima, perto da calçada, um grupo de funcionários da Varig e agregados queimavam os miolos no tabuleiro de xadrez. Eu começava no xadrez e quando podia arriscava no vôlei. Másculo jogava frescobol (muito bem) e às vezes vôlei (nossa dupla era um fracasso -- ele era baixo e eu, desajeitado). Xadrez na praia, nem pensar, não tínhamos nível. Naquele ano de 1983 foi sua última final de Brasileiro na qual se sentia com chances. A nova geração certamente não conheceu José Másculo. Eu mesmo tenho dificuldades em listar seus resultados. Ele foi bi-campeão brasileiro juvenil nos fins dos anos 70, esteve entre os dez melhores jogadores do país, jogou torneios na Europa e mais recentemente nos Estados Unidos. De brancas dominava a Inglesa e os fianquetos, de pretas tentou me ensinar os segredos da Siciliana Clássica, do Gambito Benko, da Indo-Benoni, coisas que nunca entendi. Outra virtude: nunca guardava para si estes conhecimentos. Só não foi mestre porque foi trabalhar como advogado e contador. Os diplomas, porém, não mudaram sua vida. O Zé foi também responsável pela maior renovação que o xadrez carioca conheceu desde que a Fundação Roberto Marinho desistiu dos projetos Cuca-Legal e Pedro II. Foi através dele, no fim do anos 80, que várias crianças e adolescentes conquistaram para o Flamengo importantes provas por idade, algumas até fora do Brasil. Nos últimos anos nem conversávamos muito sobre xadrez. Sua relação com o jogo era atípica para um jovem que havia sido vencedor. Másculo nunca deixou de ser um garotão, nas roupas, na fala, nos hábitos (juntou uma vez, se separou, e as novas namoradas não duravam muito). Másculo foi também comerciante (durante seis anos cuidou da loja do avô), flertou com o gamão, tentou sem sucesso jogar peteca (sugestão minha, sic!), e lá na adolescência teve momentos de surfista. Ele me dizia que o xadrez era apenas um meio de alcançar as coisas na vida. Quem era bom no xadrez podia ser bom em qualquer área, por causa da capacidade de concentração. Recentemente ele trabalhava como fiscal de ISS no município de Macaé, norte do Rio. Dividia a semana entre a capital e a cidade do petróleo. Seu último projeto ligado ao xadrez consistia em montar uma equipe e jogar o interclubes com os outros cariocas que viviam em Macaé. No fundo ele sabia que eram palavras ao vento, o xadrez fazia parte do passado. Os bons livros, o tabuleiro ficaram encaixotados na casa da mãe, logo ali, a poucas quadras. O amigo Capi é que sempre dava um jeito de soprar a poeira, puxar assunto e relembrar aquela época, quando a vida não nos exigia tanto. "Bons tempos não voltam mais", ele dizia, sem nenhuma tristeza. Não sei Zé, talvez para você os bons tempos só estejam começando. Vá em paz irmão, que Deus o proteja....
Dirceu Viana
(dviana@dviana.jor.br)
Nota da redação:
Sobre a crônica acima, extraída do site da CBX, gostaria de acrescentar
que também tive o privilégio de contar com a amizade do Másculo desde quando
o conheci enfrentando-o no Interclubes Brasileiro (C.R.Flamengo x ELASE de
Florianópolis, na cidade de Curitiba-PR, com vitória dele, claro).
Posteriormente ele veio jogar na nossa equipe (cidade de Florianópolis) nos
Jogos Abertos de Santa Catarina onde se fez uma excelente campanha. Se
encantou tanto com a cidade que por pouco não ficou morando em definitivo.
Estivemos juntos inclusive procurando imóveis que ele pretendia adquirir para
fixar residência em definitivo. Me solidarizo com o Dirceu Viana, com a perda
tão prematura do amigo Másculo.
Sobre o jornalista e enxadrista Dirceu Viana, que tão brilhantemente retrata na sua crônica quem foi o Másculo, gostaria de registrar meu testemunho pessoal, de ter ouvido do próprio Zé (como ele o chamava), por várias vezes, as melhores referências a sua pessoa, tanto como bom aluno e enxadrista talentoso, como um amigo confiável, ao ponto de sempre que podia, recomendava Dirceu para participar dos Jogos Abertos de Santa Catarina o que acabou acontecendo. Deixo um muito obrigado ao Dirceu pelo valioso e bem escrito artigo que presta uma grande homenagem ao flamenguista José soares Másculo, esse que foi mais um dos grande personagens que passou pelo enxadrismo brasileiro.
Gilson Luís Chrestani
Florianópolis,SC, 05/09/2003