Pais omissos filhos cretinos Olsen Jr., Escritor, publicado em A Notícia 16/02/2007
O casal chegou com o filho de sete anos.
Tradições gaudérias, queriam comer algo diferente. Preparei um caldo de peixe e,
pensando no guri, comprei um pote de sorvete.
A criança pôs os olhos na minha mesa de xadrez e se abancou. Fiz de conta que
era normal. Na cozinha, ouvia as batidas das peças na mesa. O garoto erguia o
braço e descia com ímpeto. As peças, de madeira torneada, eram chumbadas ...
Quando estudante, levei mais de um ano, economizando mensalmente alguns tostões
para me dar de presente aquela mesa, idos de 1972. Fui lá, discretamente, diante
da impassividade da mãe do moleque, disse que ele poderia brincar, bastava
locomover as peças, sem batê-las. Ele, então, decidiu não continuar ali, indo
sentar na rede, lá na varanda.
Conversávamos na cozinha quando o piá chegou entediado e começou a mexer nos
ímãs da geladeira: reproduções de discos dos Beatles, fotos do Che Guevara, do
Cortázar, do Maracanã, alguns deuses gregos, um Papai Noel .. Cada. um com a sua
história ... Ante a aquiescência silenciosa do pai do anjinho, sugiro, quem
sabe, se "ele" não quer jogar baralho. Pego na gaveta, o pequeno esparrama todas
as cartas sobre a mesa e diz que não sabe jogar nada. Ensino logo, divido o
baralho em dois e digo: "Chama-se 'batalha'. Ganha quem tem a carta maior. Pode
jogar com a tua mãe". E imagino que aquilo iria levar tempo ...
Almoçamos. O capetinha tem o prato cheio, feito carinhosamente pela mãe. Não
come. Advirto, para animá-lo, que se não comer; não ganha sorvete. Não dá a
mHlÍma e volta para/a rede, lá fora.
Depois da louça lavada, da sobremesa, estamos conversando, quando o pivete diz
que quer sorvete. "Não", exclamo. "Só no próximo horário, daqui a dez minutos."
Faz cara feia, o pai dele me olha, dou uma piscadela, a dizer: "Deixa comigo".
Depois, ofereço o sorvete e o demoninho afirma: "Agora, não quero mais". Era
movido pela contrariedade, mas admito, o cara tinha personalidade. "Oh, guri",
começo. "Se não comer agora, não come mais, porque este é o último horário do
sorvete ... " Então, ele come.
"Sábado agradável", exclama o pai da criaturinha. Meneio a cabeça (nem sim, nem
não), ouço: "Estes meninos de hoje, tem uma energia fora de série". Penso: o que
eles tem demais, os pais tem de menos ...
Depois, ele pegou outro tabuleiro de xadrez, trabalho artesanal, de palha de
milho, peças com detalhes ... E a espada de uma estátua de Dom Quixote ...
Aquilo era insuportável... Os pais gabando-se do dinamismo daquela miniatura de
ser e eu imaginando aquele animalzinho no zoológico lá em Pomerode ...
Finalmente, se foram.'Agradeci a visita e pedi para que voltassem logo ... Como
sou cínico. O pestinha ainda olhou-se desafiadoramente antes de sair ... Fui
consertar as três peças do último tabuleiro. Senti mil olhos me espreitando, não
sabia o que era. Só então percebi, o cretininho tinha colado um monte de coisas
com fita crepe ... Vejo o Dom Quixote com cara de tristeza. Que figura, começo a
rir, e pergunto:
"Qual de nós?"