Fischer versus Fischer

 

Marco Aurélio Zaror Cordeiro, Vice Pres.da Fed.Catarinense, Campeão Estadual 2006 e Professor de Xadrez de Lages-SC

 

 

                   Morreu Robert James Fischer, campeão mundial de xadrez no ano de 1972 e um dos maiores e mais polêmicos nomes de todos os tempos da nobre arte de Caissa. Fischer foi responsável pela vitória do “Mundo Livre” sobre a “Cortina de Ferro” do bloco comunista, numa disputa contra Boris Vasielivich Spassky, então Campeão Mundial, pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE). Fischer chegou ao match fazendo inúmeras exigências aos organizadores da gélida Reykjavik, capital da Islândia. Reclamou da cadeira, das filmadoras, das peças e da própria cidade. Perdeu a primeira partida do match pelo título mundial infantilmente e a segunda por WO (não comparecimento), dando margem considerável naquele tipo de confronto. Quando enfim todos os caprichos foram atendidos (dobrar o valor da bolsa em disputa foi uma delas. Fischer ainda era Cidadão Americano em 1972), Bobby venceu cinco das oito partidas seguintes, virando o match a seu favor e sendo aclamado o 11º Campeão Mundial da História do Xadrez, aos 29 anos , batendo o russo pelo placar de 12,5 a 8,5 após 64 dias de competição.

                   Porém Fischer ainda enfrentaria seu maior adversário, o próprio Fischer, este imbatível e inclemente. Nunca defendeu o título, passando para Anatoli Karpov sem disputas, em 1975. Fez exigências como Campeão Mundial que eram inegociáveis, dificultando toda espécie de conciliação do então Presidente da FIDE, Dr. Max Euwe. Iniciaria anos depois as famosas disputas KxK (Karpov versus Kasparov), precedidas por uma mais feroz ainda, FxF (Fischer versus Fischer). Bobby se declara anti-semita, renega sua origem judia e torna-se recluso quase que na totalidade. Acusa a imprensa de perseguição contra ele, inclusive de seu próprio país, que o abandonou, usando seu talento de enxadrista para marcar pontos na Guerra Fria USA x URSS, de fenestrando o jogador logo após o título. Claro que Fischer não era um cidadão comum, com ambições e desejos normais. Sua excentricidade era comparável aos grandes cientistas, bem como sua força de vontade em se preparar para as competições. Certa vez, declarou a Revista Life que a preparação era seu ponto alto frente aos demais Grandes Mestres (titulação máxima do xadrez) em atividade na ocasião. Aproveitou para criticar o American Way of Life “O Americano não aprecia a cultura, mas sim o entretenimento. Preciso vencer o Mundial para chamar a atenção. Todos ficam mais tempo frente à TV que lendo” alfinetou Fischer. Tentando lutar com seus fantasmas internos, apresentou variações do jogo ao mundo do xadrez e foi responsável pelo Sistema de tempo hoje aplicado nas competições oficiais Internacionais (Incremento de tempo por jogada).

                   A ruptura total entre Fischer e USA deu-se em 1992, quando disputou uma reedição do Match com Spassky, em Belgrado (Capital da Sérvia) e Montenegro. Venceu novamente, agora pelo placar de 17,5 x 12,5, porém contrariou determinação da ONU, que impede manifestações esportivas em territórios em conflito e na época estava no auge a Guerra naquela região. Foi retirada sua cidadania americana, passou a ser considerado foragido do FBI e após sua prisão no Japão em 2004, naturalizou-se cidadão Islandês, onde morreu, sem causa revelada, na quinta feira, dia 17 de janeiro de 2008, aos 64 anos de idade, mesmo tempo em dias que levou para ganhar seu primeiro e único título mundial e também o mesmo número de casas de um tabuleiro oficial de xadrez. Fischer caminhou por cada uma delas ao longo de sua vida, mas como um Rei sozinho e isolado, não evitou seu próprio xeque-mate, tombando seu monarca e talvez aliviando o peso de sua coroa, uma contumaz cobradora, não do Bobby, aquele nascido no Bronx, que jogava no Central Park, mas de Fischer, uma bandeira do xadrez de seu país, um Campeão Mundial. Seja bem vindo ao rol das lendas, nobre enxadrista!