XADREZ E PROSA 01

 

[MI Rodrigo Disconzi da Silva - federado em SC residente em Curitiba-PR]

 

MEMÓRIAS DE UM LANCE EMPRESTADO

 

Rodada final e decisiva no campeonato infanto-juvenil (sub 16) estadual. Não disputava o título, mas ficar na frente de jogadores mais velhos e de outros da minha categoria infantil já seria uma grande conquista.

 

Chego atrasado. Dormi tarde na noite anterior. Preocupado com a partida? Não , não...Provavelmente prolongando alguma fantasia com o time de vôlei feminino do colégio...O inspetor da escola onde jogaria não me deixa entrar pela porta principal.

- Entrada de atletas é lá pela Av. Silva Jardim.

 

Dou a volta na quadra correndo e entro esbaforido no salão de jogo. Órgão vitais embaralhados: coração pulsando na boca, cérebro no estômago em desjejum, um olho no emparceiramento e outro na mesa 04 com um lugar vazio no lado das brancas.

 

Quase sem sentar olho para o relógio e vejo que já perdi uns 20 minutos. Para não perder mais tempo pego um peão e jogo velozmente:

 

1.e4 ?

 

Ishhh... peguei no peão errado. Não jogo o Peão de Rei desde que era iniciante. Jogo só PD dede que vi as partidas do match Capablanca –Alekhine, cheio de profundas batalhas estratégicas e finais minunciosos. Nada daquela loucura de peças se atracando desde a abertura, estruturas de peões aniquiladas, trincheiras rasas demais pro meu paladar bélico.

 

Levanto o periscópio e dou uma geral ao meu redor... Muita gente e muita vergonha na cara pra mudar o lance.

 

Meu adversário também estava atrasado, dando-me tempo para acalmar e encarar a situação.

Vamos lá. O que eu me lembro de aberturas de PR ? Hmmm...Truques e armadilhas do manual do Idel Becker? Nem isso...Nunca gostei deste tipo de livro e nem de quem tentava aplicar estes golpinhos baratos (certamente porque eles me acertavam estes golpinhos baratos nas partidas de PR !).

 

Se ele jogar 1...e5 jogo um Giuoco Piano. Evito rocar cedo pra não levar ataque e jogo h3 o quanto antes evitando uma cravada em g4.

Não sei não...O que vão pensar de mim se eu jogar uma aberturinha sem graça dessas...

 

Outro dias desses alguém disse que o Karpov jogava posicional mesmo em partidas abertas com 1.e4.  Ele manobrava suas peças, tentava abrir uma coluna, nem que fosse a coluna A, dobrava suas torres e infiltrava no campo inimigo! Acho que posso tentar fazer isso!

 

E se ele jogar uma Siciliana? Jogo a variante Cerrada, pelo menos sei uns 5 ou 6 lances...

 

Melhor eu dar uma volta pelo salão e tentar ver o que os outros fazem quando jogam PR...

 

1... e5

 

Em vez de me acalmar com o atraso do meu adversário fiquei ainda mais ansioso com a possibilidade de ganhar de WO e não precisar justificar meu primeiro lance... mas ele veio…

 

2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5

 

E agora? Mando Cc3 sólido ou tento inventar com o tal plano flexível de c3? Melhor tentar aprender algo, nem que perca a partida... Já que entrei na montanha-russa, melhor tentar me divertir em vez de ficar gritando de medo...

 

4.c3 Cf6

 

 

Peraí! Tinha uma linha que diziam que igualava sem problemas e que era simples de jogar. E que muitas partidas empatavam por repetição de jogadas. E aquele papo de tentar aprender e tal? Sim, sim...mas joguei o peão errado...melhor esquecer esta partida e pensar no próximo campeonato.

 

 5.d4 exd4 6.cxd4 Bb4+ 7.Bd2

 

Achava que 7.Cc3 era a variante que as brancas deveriam jogar para tentar ganhar, sacrificando material. Mas como não sabia absolutamente nada sobre a posição...

 

7... Bxd2+ 8.Cbxd2 d5 !

 

O cara jogou tudo rapidinho... e sem fazer nenhuma careta! Acho que estou acertando as jogadas teóricas!

 

9.exd5 Cxd5 10.Db3

 

Por que ele está pensando tanto? Ih! Ta fazendo careta agora...Será que errei alguma coisa? Ele tá olhando pro meu rei...pra dama dele...Será que é 10...De7 ? Como defendo o xeque ?

11.Be2 leva Cf4...

 

Já estraguei tudo! Podia ter rocado em vez de atacar o Cd5. Eu sabia que eu não sabia atacar...droga! Vou ter que mexer o rei...Opa! Posso jogar Rd1 e ameaço, além de Bxd5, Te1 ganhando a dama!

 

“Hay que endurecer, pero perder en la apertura jamás!” (Chess Guevara)

 

10... Cce7

 

Ôô... 10...Ca5 11.Da4 Cc6 12.Db3 Ca5 13.Da4  seria cômodo como um sofá após a feijoada de sábado.

Agora que ele saiu do que eu planejava e tenho que jogar com o famoso Peão Central Isolado, nome que os livros dão para este franco-atirador em d4.

 

Vamos ver se lembro o que o lado com o peão isolado deve fazer:

 

- Usar as colunas do lado do peão (beleza, isto é moleza. Coloco rapidinho uma torre em e1 e outra em c1)

- Tentar ocupar os postos avançados e5 e c5 (deixa com o beque! Ce4-c5 ou Cb3-c5 saindo do forno e Ce5 quando quiser patrão!)

-  Aproveitar as vantagens de espaço e desenvolvimento para tomar a iniciativa e atacar (aí complica um pouco chefia...eu queria jogar como o Karpov...joguinho tranqüilo de fundo de quadra, rebatendo a bolinha,...nada de Smash nem saque e voleio... Vou ver o que posso fazer.)

- evitar trocar peças, pois o peão isolado fica mais fraco quanto menos peças possam defendê-lo, já que não existem peões vizinhos para escoltá-los. (Mensagem recebida! Câmbio!... Aliás...SEM Câmbios!)

 

 11.0–0 c6

 

Já completei meu desenvolvimento e ele nem pode tirar o bispo de c8, senão perde o Pb7.

Mas é nessas horas que eu sempre me ferro...O que fazer depois de terminar a abertura? Os livros dizem pra gente fazer um plano. O Peão isolado me sugere atacar, mas como? O Rei preto parece bastante seguro...Minha Dama está longe dele...Posso colocar um cavalo em e5...mas e daí? Ele fica bonito ali...mas não faz nada de concreto neste instante...melhor esperar um momento mais apropriado.

 

12.Tfe1

 

Se ele vacilar tomo em d5 e deixo ele com peão isolado também!

 

12…0–0

 

Me deixou com cara de trouxa…Mas também, que lance que eu achava que ele iria jogar...Roque é claro! Perdi tempo com uma ameaça boba... E ainda por cima ele pode futuramente trocar as torres na coluna E após Te8. Talvez devesse ter jogado 12.Ce4 para ir a c5 ou para perto do Rei preto. Mas tudo bem, pra trocar as torres ele tem que tirar o Ce7 da frente...

 

13.a4

 

Uma torre já coloquei na coluna do lado do peão isolado...mas jogar a outra em c1 não vai adiantar nada após c6 das pretas...

Vamos ver se o plano do Karpov funciona! Ganhar espaço na ala da dama, desviar a atenção neste lado e, quando ele menos esperar, troco o disfarce e vou pra ala do Rei feito o Tal !

 

13…b6

 

Se ele jogasse 13…Db6 me colocaria em xeque....ou gardê.... eu deveria trocar as damas (buscando um empate) ou manteria as damas para tentar atacar? Não sei o que faria...14.Da3 parece “forte como a noite que cai sobre Moscou”. Mas 14.a5 Dxb3 15.Cxb3 deixa meus cavalos com boas perspectivas...

 

14.Ce5

 

Joguei e tive que sair da mesa por não me conter de ansiedade...

Quando vi a armadilha não pude deixar de jogar, nem que o lance fosse ruim...a tentação de ganhar material era mais forte que minha razão, já obscurecida pela emoção.

Nesta hora, o diminuto Tal pulava de satisfação no em cima do meu ombro esquerdo...

  

14... Bb7

 

Ah! Ele viu ou é muito sortudo!

Eu queria muito que ele jogasse 14...f6 para eu poder jogar 15.Cxc6! seguido de Bxd5...

 

 15.a5

 

Voltamos ao Karpov...

 

15... Tc8

 

Acho que ele quer jogar c5…preciso colocar uma torre na coluna D para incomodar a Dd8 e também defender d4, que deixei fraco após Ce5.

 

16.Ce4

 

Além de abrir a coluna D, leva mais gente para perto dos reis.

 

16…Dc7 17.a6

 

Nunca sei ao certo se é melhor definir logo ou manter a tensão e deixar o adversário na dúvida se vou avançar ou trocar... Mas acho que eu fico mais tenso do que ele com esta indecisão! Decido fixar uma fraqueza em a7 e quem sabe num final posso sacrificar em b6 e coroar o peão A.

 

17…Ba8 18.Dh3!

 

Novamente me sobe a “naftalina”, ou adrenalina, sei lá...! Sempre que minha posição parece ser boa me empolgo...e acabo fazendo bobagem. Nas posições ruins me concentro e me defendo dentro do possível...Mas no ataque...muitas opções aparecem, uma melhor que a outra. Algumas envolvendo sacrifícios. Só gosto de sacrificar com certeza que vai dar certo ou que recupero material mais tarde.

 

Sem querer, ao jogar Ce5, libero caminho para a ala do rei..e é tão bom deixar nossa dama perto do rei do adversário.Acho que essa é uma das condições básicas para um ataque dar certo.

E de quebra evito o lance f6 que expulsaria o Ce5, pois posso jogar De6 xeque!

 

Deve ser assim que surgem grandes combinações! Na sorte!

 

18… Cf4 19.Dg4 Ced5

 

Pretas passam suas peças mais para frente e abrem caminho para a dama ajudar na defesa...acho que eu poderia fazer o mesmo que ele.

 

 20.Ta3 !

 

Tchau Karpov...já fez sua parte...Passa a braçadeira de capitão e deixa o Tal entrar em campo! 

A vontade de jogar como eles é grande, só falta aprender a calcular e avaliar como eles...entre outras coisas elementares.

 

20… Ce6 21.Bxd5!

Primeiro eliminar os defensores para depois atacar com mais facilidade. Dou xeque em f6, sacrifico em h7 e dou mate pela coluna H…moleza!

 

21… cxd5 22.Cf6+ Rh8

 

Estranhamente meu adversário estava tranqüilo e jogou rapidamente seus últimos lances...

O que pretende ele após Cxh7?

 

Parei um pouco, desconfiei...Olhei para o que mais poderia me preocupar...Minha dama, meu rei....minhas peças...tudo em ordem...

A não ser que…não…ele não pensou nisto…

22. Cxh7 Dc1!... Disgramado!  

 

Tudo bem, vamos pelo jeito mais simples então…Jogo 22.Th3 e se 22…gxf6 23.Df5! Cg5 ? 24.Df6 fácil fácil…mas de novo a dama preta defende….23…Dc2 24.Df6 Cg7 já me embaralha a cuca!

 

E agora, que faço?

 

Ainda bem que vi a tempo…

Tenho ainda uns 30 minutos no relógio para chegar ao lance 40.

Parece bastante tempo mas me conheço bem..capaz que gaste tudo só na próxima jogada…

 

Hora de lembrar dos livros de tática do Pachman, Bondarewsky, das partidas do Alekhine ( aposto que ele não deixaria escapar este ataque…mas eu não enxergo como os olhos dele…)

 

Vamos por partes….tenho o cavalo de f6 ameaçado, mas ele cobre as casas de fuga do Rei preto…eu queria muito deixar este cavalo em f6…

 

Vou tentar um macete que inventei dias destes…”se uma combinação que quero fazer não funciona, tento inverter a ordem das jogadas chaves para ver se alguma delas funciona!”

 

Se eu  jogar 22.Cg6 xeque e ele errar com 22…hxg6, eu dou mate com 23.Th3…mas ele pode jogar 22…fxg6 deixando tampada a coluna H.

E se eu sigo com 23.Dxg6 ele não captura a dama (leva mate com Th3) e sim o perigoso cavalo com 23…Txf6!

 

Hmmmm… Estou lembrando de alguma coisa…Teve uma partida do Marshall em que ele fez um lance que achei fascinante e que nunca haveria outro mais bonito que aquele…Será que funciona aqui?

 

 23.Dg6 !!

 

Aqui está o lance emprestado do Marshall, com a pequena diferença que ele jogou de pretas Dg3!!! Neste caso, a idéia é dar mate com Th3 após as capturas em g6 ou se 23…gf6 24.Df6 Cg7 25. Tg3 Tg8 26.Cf7 ganhando a dama e a partida!

 

23… Dc2!

 

De novo…cara chato…parece um daqueles zumbis de filme de terror que nunca morre!

 

24.Th3 !!

 

Contra a força não há resistência!

 

1–0

 

 PS... 

 

Na realidade a partida acabou por WO após 1.e4 ! .... mas como não tinha nada pra fazer durante o tempo de espera...

 

A partida mostrada é Rossolimo-Reisman, jogada em San Juan 1967.